8. MUNDO 11.9.13

1. ESPECIAL OBAMACOP - UMA GUERRA PARA NINGUM GANHAR
2. ESPECIAL OBAMACOP - COMO ELES ESPIONAM
3. ESPECIAL OBAMACOP - ATENTADO  SOBERANIA

1. ESPECIAL OBAMACOP - UMA GUERRA PARA NINGUM GANHAR
Se atacar a Sria, o presidente Barack Obama pode encorajar rebeldes terroristas. Se no atacar, fortalece o ditador Bashar al-Assad. A ofensiva americana tem ao menos um resultado previsvel: no haver vencedores
Mariana Queiroz Barboza

Todos os dias, seis mil srios juntam o que sobrou de seus lares e partem para viagens que no gostariam de fazer. Quando uma nao arrasada, como o Iraque, se torna uma opo melhor do que a prpria terra natal, fica fcil compreender a dimenso da tragdia. A Sria se tornou um pas inabitvel. J h dois milhes de refugiados em lugares como Lbano, Turquia e Jordnia. Calcula-se em 4,5 milhes o nmero de viajantes que se deslocam dentro das fronteiras da Sria, em busca de abrigos localizados em regies distantes das zonas de guerra e oferecidos por parentes, amigos ou qualquer um que tenha alguma piedade. Nos mais de dois anos de guerra civil, os mortos ultrapassam os 100 mil. Muitos mais morrero.  uma situao cruel de sofrimento e uma lstima que a comunidade internacional no tenha tido sensibilidade para reagir a tempo, disse  ISTO o diplomata brasileiro Paulo Srgio Pinheiro, presidente da Comisso Internacional de Investigao das Naes Unidas para a Sria. Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, iniciou uma campanha para ganhar o apoio do Congresso a uma interveno militar. Tantas vezes adiada, a ofensiva, que no est livre de produzir vtimas, se tornou legtima depois dos ataques de armas qumicas que mataram mais de 1,4 mil pessoas, muitas delas mulheres e crianas, no subrbio de Damasco, h trs semanas. Mas, apesar de compreensvel, a nova fase da Guerra da Sria tem ao menos um resultado previsvel: no haver vencedores.

VTIMAS DO CONFLITO - Famlias de refugiados cruzam a fronteira com o Iraque, em Peshkhabour. Em mais de dois anos de guerra civil, dois milhes de srios deixaram o pas

Para os EUA, foi o ditador srio Bashar al-Assad que ordenou o ataque com armas qumicas. Ainda assim, em vez de atacar o pas como disse que faria, o presidente americano buscou apoio interno, em uma atitude que dividiu opinies. A relutncia em agir e a falta de senso de urgncia s encorajam o regime srio, afirma Frederick Fleitz, ex-agente da CIA e ex-conselheiro do Departamento de Estado. Segundo Fleitz, que hoje  analista do grupo Lignet, de Washington, Al-Assad ganhou tempo para movimentar suas armas e soldados e criar barreiras humanas com prisioneiros, ativistas e crianas posicionados em instalaes militares. Ao levar a deciso para o Congresso, Obama tambm pode ser obrigado a tomar uma medida pior: realizar um ataque maior que o inicialmente planejado. Como resposta imediata s armas qumicas, ele poderia ter se sado com um pequeno e rpido bombardeio, afirma Paul Salem, diretor do Carnegie Middle East Center, de Beirute. Agora, depois de um debate nacional, o presidente no teria mais como agir com modstia.

Analista de poltica externa do Century Foundation, de Nova York, Michael Cohen aprova o recurso ao Congresso na busca por cumplicidade, especialmente numa guerra sem sada fcil. Essa  uma situao nica, porque nenhum americano foi ferido e a Sria no  um pas estratgico, diz Cohen. Ao mesmo tempo, o governo americano sabe que ignorar as evidncias de um ataque qumico poderia encorajar o Ir e a Coreia do Norte, ambos entusiastas de bombas nucleares. A proposta j foi aceita por um comit do Senado e recebeu a aprovao de velhos falces republicanos. Os americanos, entretanto, ainda no parecem convencidos. Todas as pesquisas de opinio divulgadas at a semana passada mostram que a maioria  contra a ofensiva e ctica quanto  capacidade de os EUA impedirem o uso de armas qumicas na Sria.

Eleito por uma populao cansada das batalhas promovidas por seu antecessor e condecorado com um Nobel da Paz logo no primeiro ano de governo, Obama sabe que uma guerra no  o que se espera de seu currculo. No papel de conciliador, o presidente americano evitou se envolver na Sria e estabeleceu uma linha vermelha sobre o uso de armas qumicas, como forma de adiar sua participao no conflito. Se ainda fosse senador, ele provavelmente seria crtico a mais uma interveno militar no Oriente Mdio. Os desdobramentos da Primavera rabe e as mudanas no equilbrio de poder na regio testaram a credibilidade de sua poltica externa. Para Obama, chegou a hora de recalcular sua estratgia. Por mais que sejamos criticados, quando coisas ruins acontecem no mundo, a primeira pergunta que surge  o que os EUA faro em relao a isso, declarou.

A deciso de intervir expe um rano imperialista com o qual Obama no gostaria de ser vinculado. Guerrear faz parte da prpria alma americana. At 1947, os EUA chamavam o seu Departamento de Defesa de Departamento da Guerra. Desde o fim da II Guerra Mundial, o pas ordenou mais de uma centena de intervenes militares de diferentes dimenses. Na ltima dcada, a participao dos EUA nas despesas militares globais saltou de um tero para a metade do total. Os gastos com Defesa, em termos reais, cresceram tanto no perodo que hoje esto US$ 100 bilhes acima da mdia gasta durante a Guerra Fria, de acordo com o Center for American Progress. Nos oito anos  frente da Casa Branca, George W. Bush elevou o oramento anual do Pentgono de US$ 412 bilhes para US$ 699 bilhes. Nos primeiros anos como presidente, Obama reduziu o valor timidamente. Mesmo assim, o oramento militar nas mos do presidente, com exceo de Bush,  o maior desde Franklin Roosevelt, que morreu no cargo em 1945.

O tabu contra o uso de armas qumicas que os americanos querem defender agora  uma das normas globais mais antigas. A razo, segundo o pesquisador Michael Cohen,  simples: esse tipo de arma causa assassinatos em massa e  mais uma ferramenta para ferir inocentes do que para ganhar uma guerra. Muitos estudiosos, porm, enxergam na atual postura dos EUA algo de cnico. H indcios de que os prprios americanos usaram agentes qumicos no Vietn e no Iraque. Durante os anos 80, o Ir foi vtima de ataques com sarin pelas foras de Saddam Hussein e, embora documentos de inteligncia mostrem que o presidente Ronald Reagan sabia disso, ele nada fez. Alm disso, Israel tambm  acusado de usar gases letais contra o Lbano e nem assim os americanos coordenaram uma campanha condenatria.

Nos bastidores, a participao americana na Sria j existe. Nos ltimos meses, surgiram relatos de que os EUA tm treinado rebeldes moderados na Jordnia e, desde junho, agentes da inteligncia americana tm autorizao para arm-los. As armas destinadas a esse grupo, contudo, ainda no chegaram. A cautela se deve ao temor de ajudar a Al-Qaeda. Queremos ter certeza de que as armas no vo cair nas mos erradas, diz Andrew Terrill, especialista em Oriente Mdio do Instituto de Estudos Estratgicos do Exrcito americano. Na estimativa apresentada pelo secretrio de Estado, John Kerry, extremistas islmicos representam entre 15% e 25% da oposio, que soma de 70 mil a 100 mil rebeldes. Nas contas de Al-Assad, os aliados da Al-Qaeda representariam 90% dos opositores. Por isso, os americanos examinam, num lento processo que inclui at quatro checagens, o histrico de determinados lderes rebeldes e suas ligaes com redes terroristas. Menos prudentes e mais interessados na deposio de Al-Assad, Arbia Saudita, Qatar, Turquia e Jordnia so hoje os principais fornecedores de armamentos dos rebeldes.

Enquanto a atmosfera em Damasco se aprofunda na angustiante espera por um ataque ocidental, Bashar al-Assad no demonstra sinais de abatimento. O presidente trata a guerra com distanciamento, como se sua figura pouco ou nada tivesse a ver com ela. A exemplo do que tem feito nos ltimos dois anos e meio, ele manteve seus compromissos oficiais desde que os EUA determinaram que ele ultrapassara a linha vermelha. Em seu perfil no Instagram (aplicativo de fotos para smartphones), as atualizaes mostram o ditador em encontros com autoridades, religiosos e estudantes, com legendas em ingls e rabe. Sua esposa, Asma, sempre sorridente e impecavelmente bem-vestida, aparece distribuindo comida para famlias desalojadas.

Apesar da estratgia de mostrar um lado mais suave, Al-Assad sustenta um discurso agressivo. Em entrevista ao jornal francs Le Figaro, ele disse que a nica forma de combater os terroristas da oposio  exterminando-os e,  tev estatal, declarou que estava pronto para reagir a qualquer agresso estrangeira. O Ir e o grupo libans Hezbollah reafirmaram sua aliana com Al-Assad e, em retaliao a um ataque, podem promover instabilidade em pases como Israel, Turquia e Jordnia.  esperado que o Ir vocifere e considere enviar mais apoio ao regime de Al-Assad, afirma Andrew Terrill. Mas tudo pode no passar de jogo de cena. A economia do pas tem sofrido com as sanes impostas pela ONU a fim de interromper seu programa nuclear e o novo presidente Hassan Rohani, um moderado, deve parte de sua eleio  expectativa de que consiga remov-las. E uma forma de garantir que isso nunca acontea  se engajar num Estado terrorista, como a Sria, diz Terrill.

DOIS LADOS - Bashar al-Assad ( esq.)  um ditador sanguinrio, mas as foras de oposio ( dir.) acolhem extremistas islmicos ligados  rede terrorista Al-Qaeda

Outro importante aliado de Al-Assad, a Rssia no d sinais de que facilitar o caminho dos americanos. Na abertura da reunio do G-20 em So Petersburgo, na quinta-feira 5, o presidente russo, Vladimir Putin, chamou John Kerry de mentiroso por omitir a Al-Qaeda em seus discursos. Fortalecer o inimigo, afinal, seria o maior revs da operao americana. Desde que tomou a deciso de intervir, Barack Obama tem dito que derrubar Al-Assad no est em seus planos. O problema em escolher o lado da oposio como soluo para o conflito  que os rebeldes no so uma fora unida e pacfica. Sem Al-Assad, a Sria poderia viver uma situao parecida com a do Afeganisto ps-Talib, em que diversos grupos armados e rivais brigam pelo poder. O Egito, que desde a queda do ditador Hosni Mubarak vive um caos poltico entre militares e extremistas islmicos, tambm  um exemplo que o Ocidente quer evitar. Neste caso, como disse Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia,  mais desafiante quando o inimigo de seu inimigo  seu inimigo.

PROVOCAO - O presidente da Rssia, Vladimir Putin ( esq.), chamou o secretrio de Estado americano, John Kerry ( dir.), de mentiroso por no citar a Al-Qaeda


2. ESPECIAL OBAMACOP - COMO ELES ESPIONAM
Foi a partir da ilha de Ascenso, a 2,5 mil quilmetros do Recife, que agentes de Barack Obama conseguiram bisbilhotar conversas telefnicas e trocas de e-mails da presidenta Dilma Rousseff
Claudio Dantas Sequeira e Josie Jeronimo

Acerca de 2,5 mil quilmetros do Recife (PE), numa regio inspita do Atlntico Sul, existe uma pequena ilha de colonizao britnica chamada Ascenso.  l que os agentes de Barack Obama captam aproximadamente dois milhes de mensagens por hora. So basicamente conversas telefnicas, troca de e-mails e posts em redes sociais.  dessa pequena ilha que os tcnicos da NSA, uma das agncias de inteligncia dos Estados Unidos, vm bisbilhotando as conversas da presidenta Dilma Rousseff e de alguns de seus ministros mais prximos, segundo especialistas ouvidos por ISTO na ltima semana. A ilha de Ascenso tem apenas 91 quilmetros quadrados e seria irrelevante se no estivesse numa posio estratgica, a meio caminho dos continentes africano e sul-americano. Ao lado de belas praias, sua superfcie abriga poderosas estaes de interceptao de sinais (Singint), que se erguem como imensas bolas brancas. Elas integram um avanado sistema de inteligncia que monitora em tempo real todas as comunicaes de Brasil, Argentina, Uruguai, Colmbia e Venezuela e fazem parte de um projeto conhecido como Echelon (leia quadro  pg. 46), que envolve, alm dos Estados Unidos, Reino Unido, Nova Zelndia, Austrlia e Canad.

INCIO DE TUDO - Documentos mostrados pelo ex-analista da CIA Edward Snowden indicam que a interceptao americana partiu da ilha de Ascenso

O indicativo mais forte de que a invaso de Obama nas conversas da presidenta Dilma e seus ministros se deu a partir da ilha est nos prprios documentos exibidos por Edward Snowden, denunciando o esquema. Neles, l-se, na parte inferior, o grau de classificao top secret (ultrasecreto), o tipo de documento Comint/REL (comunicao interceptada) e sua divulgao (USA, GBR, AUS, CAN, NZL), exatamente as siglas que indicam os pases do sistema Echelon. H um alto grau de probabilidade de que a NSA j tenha entrado no apenas no sistema de comunicaes da presidenta, mas em todos os sistemas nacionais crticos, alerta o consultor em segurana Salvador Ghelfi Raza, que j trabalhou para o governo de Barack Obama.

As antenas da ilha de Ascenso conseguem captar as mensagens logo depois de serem produzidas, antes mesmo que elas cheguem aos satlites para serem distribudas. Uma vez recolhidas, as informaes so lanadas em um gigantesco computador instalado no Fort Meade, em Maryland, nos EUA. L, so processadas em um programa chamado Prism (Prisma), que localiza, por intermdio de palavras-chaves, aquilo que os bisbilhoteiros procuram, entre os milhes de dados recebidos por hora. A partir da as informaes so submetidas a um outro programa, que quebra a criptografia. Ainda em Maryland, computadores traduzem as informaes coletadas. Feita a anlise, o que for de interesse do governo americano ser distribudo aos agentes espalhados por todo o mundo para continuar o servio de monitoramento. Muitas vezes empresas americanas ligadas  telefonia e  internet so acionadas para informaes complementares. Com acesso  rede, por um tcnico autorizado,  possvel captar todo o trfego de dados, sejam arquivos de vdeo, sejam fotos, trocas de mensagens ou chamadas de voz sobre IP.

A cooperao de grandes corporaes, como Microsoft, Google, Facebook ou mesmo os gigantes da telefonia, Verizon e At&T,  fundamental para o funcionamento da rede da NSA. Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram ainda que os EUA contam com dezenas de empresas de segurana da informao, num total de 1,2 milho de tcnicos, agentes e autoridades. Na ilha de Ascenso, que serviu  Inglaterra na Guerra das Malvinas, tambm esto instalados o servio de inteligncia criptolgica britnico (GCHQ), estaes de monitoramento de testes nucleares e uma das duas estaes da emissora de rdio The Counting Station, apelidada de Cynthia, pela qual a CIA se comunica com seus agentes secretos espalhados pela Amrica do Sul e frica.

Foi a partir de 11 de setembro de 2011, com George W. Bush e o incio da guerra ao terror, que a Casa Branca determinou uma modernizao completa da base de Ascenso. Desembarcaram na pequena ilha voos regulares com supercomputadores, novas estaes de monitoramento e uma vasta gama de equipamentos de ponta. O contingente de agentes da NSA cresceu cinco vezes e foi acompanhado por esforos britnicos no mesmo sentido. Ao assumir em 2009, Barack Obama determinou uma reviso completa da poltica de cyberdefesa, que ele classificou como o mais srio desafio econmico e de segurana nacional que os EUA deveriam enfrentar como nao. Para o democrata, era necessrio promover um salto tecnolgico e estratgico em toda a infraestrutura de comunicaes e informao. Logo ele nomeou um comit executivo, integrado por representantes governamentais e do setor empresarial, e um coordenador, o cyberczar, com livre acesso a seu gabinete e com quem passou a despachar diariamente. Hoje, a NSA  a agncia principal do sistema de inteligncia americano. Abaixo dela esto outras 18, inclusive a velha CIA. Embora muitos acreditem que o Echelon seja coisa do passado, a verdade  que ele foi atualizado e sua plataforma de operao digital  a base da atual defesa ciberntica, que no respeita limites na realizao de seus objetivos estratgicos, polticos e comerciais.


3. ESPECIAL OBAMACOP - ATENTADO  SOBERANIA
Denncias de que a espionagem americana chegou ao gabinete de Dilma Rousseff derrubam o encanto de um governo em que o poderio militar  cada vez maior e fazem o Brasil elevar o tom em relao a Barack Obama
Paulo Moreira Leite e Claudio Dantas Sequeira

Informaes fornecidas pelo desertor da CIA Edward Joseph Snowden tiraram da penumbra um esquema de espionagem que chegou ao gabinete da presidenta Dilma Rousseff, envolveu atos secretos de governo e decises consideradas  at ento  de carter confidencial. At mensagens do celular da presidenta foram monitoradas. Investigaes preliminares dos servios de informao do governo brasileiro levantaram a convico,  na semana passada, de atos ainda mais graves. Suspeita-se de que, atravs dos tentculos eletrnicos da National Security Agency (NSA), o governo americano no s grampeou e-mails e telefonemas, mas pode ter sido capaz de gravar reunies e conversas entre Dilma e seus ministros no Planalto, o que caracteriza um esforo ainda mais agressivo contra a soberania de um povo e seu governo. Outro aspecto  que, buscando informaes disponveis pela internet, quebrando vrias barreiras de sigilo e dados criptografados, a mquina da NSA obtm acesso a diversos dados privados da presidenta. Pode inclusive ter obtido informaes confidenciais sobre sua sade, atingida por um cncer nos vasos linfticos, tratado e inteiramente curado em 2010.

BISBILHOTAGEM OFICIAL - Por meio da National Security Agency (NSA), o governo americano no s grampeou e-mails e telefonemas como pode ter gravado reunies e conversas entre Dilma e seus ministros no Planalto

Com repercusso nos jornais do mundo inteiro, a descoberta retira um novo vu de encanto que ainda persistia em relao  presidncia de Barack Obama. Eleito em 2008 com a promessa de renovar a poltica externa de Washington, com uma postura de tolerncia e convvio pacfico entre as naes, no incio do governo,  Obama tornou-se o nico ser humano agraciado com um Prmio Nobel da Paz de carter preventivo, sem que nada tivesse feito, antes ou depois, para justificar tamanha considerao. Iniciando o segundo mandato, fez tudo ao contrrio do que havia prometido. Hoje, comanda um Estado em que o poder militar  cada vez maior, no qual a mquina das diversas agncias do servio secreto mobiliza 100 mil pessoas por ano e consome um oramento de U$S 50 bilhes.  Acho muito complicado saber essas coisas pelos jornais. Eu quero saber o que h. Se tem ou se no tem. Quero saber tudo o que tem, esbravejou Dilma, em So Petersburgo, no final de uma reunio do G-20, quando manteve uma conversa de 20 minutos com o presidente dos Estados Unidos. Obama assumiu a responsabilidade direta e pessoal tanto para a apurao das denncias quanto para oferecer medidas que o governo brasileiro considerasse necessrias, afirmou a presidenta. Ao mencionar o tema, no entanto, Obama foi mais lacnico. Empregando o tom de quem no estava a par do que a presidenta lhe dissera, afirmou: Disse a Dilma que vou dar uma olhada nas alegaes e ver o que est acontecendo, resumiu.

Inaceitveis, do ponto de vista diplomtico, as operaes de espionagem tambm ajudaram a produzir um desastre do ponto de vista poltico. Os documentos  confirmam que, ao contrrio de tantas proclamaes oficiais de Washington, o Brasil  um alvo prioritrio para a atuao clandestina do servio secreto numa posio semelhante, apenas, a pases como a China, a Rssia, o Ir e o Paquisto. A diferena  que nenhum deles recebe flores da Casa Branca e do Departamento de Estado com tanta frequncia. Ao colocar o Brasil ao lado de companhias to pouco confiveis, do seu ponto de vista,  a Casa Branca escancarou uma diplomacia de jogo duplo, o que  especialmente constrangedor para Dilma. Sucessora de Lula, um presidente que fez do antiamericanismo um trao permanente de seu segundo mandato, Dilma tomou posse com a disposio de reconstruir a conversa com Washington. Uma das razes para a escolha de Antonio Patriota para ocupar a chancelaria, na qual ficou at a fuga do senador boliviano Roger Molina, eram seus contatos especialmente prximos de Hillary Clinton, chefe do Departamento de Estado. O que se v agora pode ser considerado, alm de um inequvoco atentado  soberania, uma traio.    

Para atear ainda mais lenha a essa fogueira, os segredos mais recentes da espionagem de Washington foram revelados dois meses antes da data marcada para uma visita de Estado de Dilma a Washington, em que a presidenta teria direito a tantas honrarias e festejos que at diplomatas mais experimentados com a tonalidade furtiva das relaes entre a primeira potncia mundial e os outros pases logo farejaram que havia, obviamente, algo de errado em tudo aquilo. S no se poderia supor que seria algo to errado, a ponto de o Planalto cogitar, seriamente, a possibilidade de cancelar a visita como um ato de repdio  espionagem, hiptese que teve aliados e adversrios no governo, que na semana passada examinavam prs e contras de uma medida drstica, mas, em algumas circunstncias, indispensvel. Num sinal de que a proposta  entrou na lista de reaes possveis, Braslia cancelou uma misso precursora, destinada a fazer levantamento de locais e instituies que seriam visitados pela presidenta.  Mais do que uma medida definitiva, pois pode-se enviar outra misso a qualquer momento, caso a visita se torne menos vergonhosa  do que parecia nos dias seguintes s denncias, era um aviso direto a Washington de que, por enquanto, os preparativos para a viagem foram suspensos.

Uma das principais dificuldades para uma reaproximao amistosa e menos constrangedora reside na postura americana, que no costuma oferecer nem sequer uma oportunidade para as autoridades atingidas sentirem-se reconfortadas por pedidos de desculpas, mesmo fingidos, e explicaes com um mnimo de consistncia.  Ao comparar as primeiras revelaes sobre a espionagem americana, mais leves e suaves, mas j preocupantes, divulgadas em 5 de julho, e as descobertas da semana passada, constatou-se um agravante. Chamado a dar explicaes pelo Itamaraty, o embaixador Thomas Shannon assegurou, na poca, que o trabalho se resumia aos chamados metadados. Assim, a NSA apenas faria o monitoramento de quem se comunicava com quem  mas no penetrava no contedo das conversas. Era mentira, comprovou-se na semana passada. Outras solicitaes formais do governo brasileiro, como ter conhecimento, preciso das informaes capturadas de modo ilegal, que permitiriam ao menos se ter uma noo do prejuzo sofrido,  sequer foram respondidas.

Essa postura tambm foi experimentada pelo ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, encarregado pela presidenta Dilma Rousseff de conduzir negociaes na tentativa de definir um acordo de reciprocidade para assegurar um mnimo de controle sobre a atuao da mquina de espionagem. H 15 dias, quando tudo o que se sabia eram as denncias preliminares de Snowden, Cardozo foi enviado a Washington para negociar um acordo bilateral. Em encontros com o secretario de Justia, Erick Holder, e com o vice-presidente, Joe Biden, o ministro apresentou uma proposta que Braslia considerava aceitvel para as duas partes. O Brasil no faria oposio a grampos  realizados no Pas, desde que eles se limitassem a investigao de atos ilcitos, de qualquer natureza, e tivessem autorizao da Justia brasileira. Em contrapartida, o governo Dilma Rousseff  pedia reciprocidade: caso o governo brasileiro quisesse monitorar grampos nos Estados Unidos, tambm poderia faz-lo, desde que tivesse autorizao judicial. A ideia foi descartada sem explicaes ou argumentos, recorda Cardozo, que desembarcou de volta ao Brasil na sexta-feira 31 de agosto e, poucas horas depois, tomou conhecimento do novo pacote de denncias. Eles poderiam ter pedido tempo para analisar, mesmo que nunca dessem uma resposta. Seria uma demonstrao de considerao pelo nosso ponto de vista. Nem isso, disse o ministro.

Como se aprende nos bons filmes de agente secreto, a espionagem nunca  somente um servio de cidados intrpidos e corajosos, mas tambm reflete determinado ambiente poltico. Com o auxlio do ento ministro-chefe da Casa Civil Jos Dirceu, em seu primeiro mandato Lula estabeleceu relaes especialmente proveitosas com o presidente George W. Bush. Criados em escolas polticas opostas, os dois se entenderam em torno de assuntos de interesse comum e isso envolveu operaes secretas. Obcecado pelo combate ao terrorismo, Bush no enfrentou oposio do governo brasileiro para investigar denncias, no comprovadas, de que comerciantes estabelecidos na regio da Trplice Fronteira providenciavam servios de lavagem de dinheiro para o terrorismo islmico. Em contrapartida, quando se encontrou, no Banestado, indcios de corrupo e lavagem de dinheiro, uma equipe da Polcia Federal pde estabelecer-se por trs meses em Nova York e, com o auxlio do FBI, fazer um exame completo em contas suspeitas, operao que abasteceu os melhores documentos da clebre CPI do Banestado.

DESPISTE - No incio do ano, o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, mentiu ao assegurar que o seu pas no monitorava o contedo de conversas

Num mundo onde a potncia americana no possui rivais nem desafiantes, no h quem ouse peitar Washington de forma direta nem permanente. Vrios pases da Europa ocidental saram  da Guerra Fria como um brao auxiliar e subalterno dos Estados Unidos, a comear pela Inglaterra. Mesmo a Frana, que tem peridicos momentos nacionalistas, mostra-se cada vez mais includa na mesma esfera de influncia. Trata-se, na verdade, de uma fora acumulada pelo Estado americano em comunho com grandes corporaes privadas que lideram, sem rivalidade, as principais inovaes tecnolgicas do planeta.  Fornecedoras habituais de informaes para o governo dos Estados Unidos, que pagam boas recompensas pela mercadoria recebida, elas recebem, em troca, informaes sensveis para investimentos e reas de interesse. Um dos principais estudiosos dessa situao, o professor Carlos Alberto Muniz  Bandeira recorda que a interveno da inteligncia dos Estados Unidos teve um papel decisivo para assegurar a vitria da Raytheon na montagem do Sistema de Vigilncia da Amaznia (Sivam), em 1994, numa disputa bilionria com um consrcio francs que incluiu vrios grampos telefnicos e um pedido direto do ento presidente, Bill Clinton, ao presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso.

 nesse ambiente de segredos mltiplos que o governo examina a imensa camada de interesses envolvidos na questo. A prpria Dilma est convencida de que, do ponto de vista comercial, os investimentos no pr-sal podem motivar uma ao desse porte em espionagem. Parece claro que, ao espionar diretamente a presidenta, o servio secreto tambm quer acompanhar seus passos e decises muito de perto. Mas h outra pergunta que se faz no governo: quem se beneficia com uma denncia que, em ltima anlise, prejudica uma poltica de aproximao, com avanos, recuos e tantas desconfianas, entre os governos dos dois pases? Os suspeitos principais de Braslia so dois. Em sua viso, China e Rssia, nesta ordem, poderiam ter interesse em envenenar essa convivncia.

